quinta-feira, 10 de março de 2016

O quanto era a miséria dos meus conhecimentos perante a PHC*
                                                        ¹* (Pedagogia Histórico Critica)
                            ² “A ignorância nunca foi útil a ninguém!” Marx           
Qual o significado das tendências educacionais para educação Brasileira? Qual as influências dessas tendências educacionais na educação do nosso país? O que alterou e deixou de alterar na educação Brasileira? Quais os benefícios ou danos que trouxeram para a filosofia, história, psicologia e didática na educação Brasileira?
Por si só é uma bagagem de conhecimento que nem todo professor terá a propriedade e noção de tal destino, isto requer um profundo e minucioso estudo para responder tal arcabouço de questões possíveis de aproximar as preliminares respostas da indumentária precisão.
No meu livro A Anomia do Professor, abri alas para este destino, apesar de tímida e amadora, porque não tratei especificamente como objeto de estudo tal tema, mas abordei primariamente e percebi que neste aspecto o quanto era a minha miséria do meu conhecimento sobre tal tema abrangente que dá várias teses acadêmicas.
Na Anomia do Professor exponho a luta do materialismo versus idealismo, do criacionismo versus ciência, positivismo versus marxismo; do qual correntes distintas no processo construção de conhecimento e interpretação da vida para a humanidade; reflito a educação num olhar marxista, ainda que primário e aponto posições das correntes socialistas e comunistas da educação, além de ousar sobre a escola comum que aproxima minhas idéias na compreensão do materialismo histórico dialético, das idéias do professor Dermeval Saviani (porque eu não ligava a teoria da Pedagogia Histórico Critica-PHC ao formulador que é Saviani). Isso mostra do quanto minha pobreza perante a conhecer as idéias pedagógicas em disputa na educação Brasileira.
Elencando minhas dúvidas sobre a filosofia do método Paulo Freire, vem me incentivando ler sobre as tendências educacionais na história da educação Brasileira, do qual Dermeval vem me ajudando muito nas suas obras e me instrumentando sobre o olhar critico aos períodos educacionais e a hegemonização e influencia de pensamento nos currículos escolares, de sua ideologia e estruturas de valores das elites Burguesas (monárquica, agrária, capital produtivo e a financeira) na ontologia histórica.
O despertar para tal, veio das aproximações ao assistir o mestre Dermeval Saviani em curso partidário em julho/15 – Jacareí/SP e depois um seminário sobre a Pedagogia Histórico - Critica/PHC em 25 a 29 de Janeiro/16 na cidade de Limeira/SP.
Quero aqui destacar a reflexão de miséria, perante a ligação mais fecunda do tema: pensamento, idéias, história e tendências educacionais no Brasil e minha miopia perante a importância da PHC para o debate atual sobre educação Brasileira.
Do ponto de vista filosófico, miséria não é uma visão estática, mas um ponto de partida e chegada do estado de coisa apresentada pode ser considerada uma pobreza, mas uma pobreza acumulada e ter contrapartida em suas necessidades e sai do estado de coisas que se encontra; a inquietação da pobreza gera um movimento em busca da riqueza do conhecimento que se é provocado, pois bem...
Essa inquietação sai do ponto de partida, é provocada em primeiro plano no campo filosófico e em seguida no papel histórico que tiveram como condutora e vanguarda das tendências educacionais nos planos, gerenciamentos e execuções do estado na educação escolar.
Marx ao fazer a crítica a Joseph Prudhon em Miséria da Filosofia passou o bisturi (como diz Saviani) na filosofia da miséria, condenou a interpretação Prudoniana quanto à teoria do valor, a compra da força de trabalho e geração da Mais Valia; a contradição de Prudhon é aberrante pela sua pobreza tanto na filosofia como nas categorias da estrutura econômica, sua vaidade pequena burguesa cega seu olhar mais revolucionário; Marx afirma: ”O que demonstro, sobretudo é que Prudhon não tem senão idéias imperfeitas, confusas e falsas sobre a base de toda a economia política, o valor permutável, circunstanciais que o leva a ver os fundamentos de uma nova ciência numa interpretação utópica da teoria do valor de Ricardo” – Londres. Jan/1865.O lado bom, ele vê exposto pelo economista; o lado mau ele vê denunciado pelos socialistas. Toma de empréstimo aos economistas a necessidade de relações eternas, toma de empréstimo aos socialistas a ilusão de não ver na miséria senão a miséria” K. Marx – 1865.
Não diria que o estado de minha pobreza esteja tão quanto a de Prudhon perante a economia, mais diria que, o que me faltava era a indumentária da pedagogia histórico critica, para melhor interpretar a educação Brasileira e suas tendências educacionais no país e no mundo; além de uma tendência educacional próxima as minhas convicções marxista.
E porque cheguei a esta conclusão agora? Já tinha lido ESCOLA E DEMOCRACIA em 1990, estudado textos de Saviani no Movimento secundarista e na formação acadêmica de pedagogo, estudei o livro Educação: do senso comum a consciência filosófica e pedagogia histórico critica de 2002 a 2005, o primeiro livro comprado no quinto Coned em Recife-PE.
Perdura a pergunta: POR QUE DESPERTEI E ASSUMO AGORA A TEORIA PHC?
Algumas conclusões primárias e apontamentos para tal:
  1. Porque a teoria tem peculiaridade Brasileira, estuda a educação do Brasil há trinta anos sobre o critério do método do materialismo histórico dialético;
  2. Porque tem como referência a formação do ser humano na sociedade comunista para a educação contemporânea;
  3. Tem como objeto de estudo o mundo do trabalho, ou seja, a divisão do trabalho, além da propriedade privada sobre os aspectos das categorias educacionais;
  4. Suas fundamentações apresentam três pontos como eixo na sociedade comunista no processo educativo I. A individualidade livre e universal na sociedade comunista; II a auto-atividades como atividade plena de sentido e fundamento da vida na sociedade comunista e III as relações humanas plena de conteúdo na sociedade comunista;
  5. Tem compromisso de não educar a humanidade como seres abstratos, mais sim autênticos sobre a completude mais integra da formação humana;
  6. Porque é uma teoria que propõe a apropriação, pela classe trabalhadora, da totalidade do conhecimento socialmente existente;
  7. É uma teoria que se contrapõe a alienação do trabalho, ao qual Marx decifrou como uma imposição do capital e faz dos trabalhadores cegos perante as armadilhas do inimigo: o patrão;
  8. É a teoria que pela compreensão de luta de classe, afirma que o conhecimento e produção dele, não são neutros!
  9. É essa teoria que denuncia a associação entre o neopsitivismo com agenda pós moderna tendo compromisso comum com a democracia capitalista, uma espécie de antípodas solidários, com semelhança a de denúncia de Lukács (1979) sobre neopositivismo e o existencialismo; dos quais são substâncias para a renovação do pensamento de direita refinado, com adesões de intelectuais que se reivindicam de esquerda;
  10.  É a teoria que se propõe a fazer a luta ideológica no campo da produção de conhecimentos no Brasil pela superação do capitalismo e a valorização da Escola
Sobre estes aspectos conclusivos que apresentamos ao debate e o convite para a soma desta teoria, podemos destacar que esta teoria vai além das minhas conclusões, apresenta uma leitura mais fecunda do campo da psicologia histórico-cultural, em entender melhor o desenvolvimento do psiquismo³, a educação escolar e a construção do conhecimento objetivo acerca da realidade; sobre a prática educativa; da ética classista.
No desenvolvimento do psiquismo destacamos:
  • Que os pesquisadores Leontiev, Luria e Vigotski desenvolveram esta categoria de estudo;
  • Que sobre o aspecto deste desenvolvimento, Leontiev afirma que o que dá origem a forma humana no reflexo da realidade é a consciência humana; Vigotsky afirmou que existem dois planos na função do desenvolvimento da criança, o primeiro no social e o segundo é no psicológico; Saviani afirma que “a natureza humana não é dada ao homem, mas por ela produzida sobre a base da natureza humana biofísica. (...) o trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada individuo singular, a humanidade que é produzida historicamente pelo conjunto dos homens” – Saviani, 2003, p.13;
  • Que o processo desse psiquismo se dar pela conversão das imagens em signos e a construção do sistema de signos denominados linguagens; depois a construção das idéias e, por conseguinte os conteúdos do pensamento que opera na regulação do comportamento através de conceitos, juízos sobre as coisas, análise/síntese, comparação. Generalização e abstração. Nesse acumulativo de funções psicológicas sensação, percepção, memória, pensamento e imaginação se dar as funções cognitivas em construção da realidade subjetiva; assim demonstramos que existe uma diferença entre emoções e sentimentos, versus pensamento empírico e pensamento teórico, mostra também que a cognição e o afetivo é parte construtiva do psiquismo;
  • No desenvolvimento do psiquismo na educação escolar, se dar a ligação do real, com maior grau de fidedignidade de representação subjetiva que chamamos de conhecimento objetivo, porque a realidade existe independentemente da consciência dos homens; a representação subjetiva da realidade em sua maturidade, historicidade e essencialidade concretizam o conhecimento objetivo. Posto isto a apropriação e prioridade dos conteúdos é a única forma de lutar contra a farsa do ensino; cabendo a educação escolar garantir o desenvolvimento da consciência transformadora nos indivíduos, sendo ferramenta indispensável para tenhamos ação ao meio e sejam sujeitos da história, instrumentalizando os indivíduos para a atividade consciente e nas transformações de si mesmos;
  • No campo da ética a PHC se ampara sob a ética marxista, onde seu objetivo ético se volta para emancipação humana, não pela via particular, mas nas condições objetivas de uma atividade pela transformação das relações de produção;
  • Na prática pedagógica, a PHC está comprometida com o projeto educativo numa visão de ser humano e de sua relação com o trabalho determinado pelo materialismo histórico-dialético; porque existe o trabalho material e não material, mas que ambos sejam transformadores da ordem vigente; nessa prática pedagógica a PHC propõe cinco momentos: o ponto de partida, problematização, instrumentalização, catarse (que é um processo de síntese com aprofundamento continuo) e ponto de chegada. Com destaque de que sem a história do individuo, não tem diagnóstico do ponto de partida; porque a sociedade capitalista não considera este critério, a avaliação da educação capitalista não garante e impede o sujeito ascender ás formas mais desenvolvida da cultura (as formas da linguagem mais elaborada) excluindo o sujeito do processo de humanização.

O que mais me empolga nesta pesquisa sobre a teoria PHC; é sua desconstrução das pedagogias do “aprender a aprender” e eu achei o que eu queria ler, sobre o modismo do construtivismo e suas influencias; a crítica da PHC ao construtivismo é direta, firme e fundamentada na abordagem histórica de onde vem esse modismo na prática pedagógica Brasileira.
Destaco as considerações aqui a critica da PHC as pedagogias do “aprender a aprender”:
  1. Seu fundamento vem da teoria de Jean Piaget, considerado como liberal no campo do pensamento, com sua obra: “a epistemologia genética” influenciou a educação Brasileira com surgimento da tendência escolanovista de Anísio Teixeira e outros na LDB de 1961; nos Parâmetros Curriculares Nacionais em 1998, com assessoria de César Cool (construtivista espanhol), onde a carta indicativa mais recente é o livro referendado por esta teoria é o livro: “Educação: Um tesouro a descobrir
  2.  Segundo Marilda Gonçalves Dias facci, no livro: Pedagogia Histórico Critica – 30 anos, p.122/2011, ela destaca a descrição de Saviani sobre a teoria do “Aprender a Aprender”. O lema “aprender a aprender” “remete ás idéias pedagógicas escolanovistas” [...] “deslocando o eixo do processo educativo, do processo lógico para o psicológico; dos conteúdos para os métodos; do professor para o aluno; do esforço para o interesse; da disciplina para a espontaneidade” Saviani (2007, p. 429);
  3. O embasamento da teoria do “aprender a aprender” não distingue filiações filosóficas, inclui vários pensadores de pólos distintos, uma verdadeira miscelânea; porque falta historicidade na epistemologia genética, visto que se apóia no biologismo e se distancia dos pressupostos Vigostyskianos (Duarte – 1996/2000);
  4. A negação dos conceitos científicos para facilitar, colaborar no processo da aprendizagem; da negação do professor como principal ator do processo de ensino; quando se esvazia o processo do conteúdo na aprendizagem, esta teoria mostra-se baseada no pragmatismo, no Espontaneismo, sem uma reflexão. Pode-se considerar que é uma teoria de cunho liberal para maquiar metodologia do capitalismo com seu pós modernismo, utilizando chavões de que tudo depende do individuo abrindo o fetiche da individualidade, como a do homem de fácil adaptação independente da precarização do trabalho que tem sofrido, mostra-se seus vínculos com a ideologia neoliberal dos  quais as políticas neoliberais de formação de professores passa pelas idéias articuladas pelas proposições construtivistas.
Depois destas conclusões e considerações sobre a PHC e o “aprender a aprender”, percebo do quanto foi cruel e cinismo ideológico no meu curso de graduação, onde afastavam o pensamento de Vigotsky do Marxismo; do quantos danos estamos tendo no processo de ensino para os filhos da classe trabalhadora e a educação escolar virarem produto do capital.
Dimensiono o universo da responsabilidade que temos ao assumir uma teoria que se contrapõe ao jurássico modelo do individualismo, do currículo secular com inovações artificiais para se perdurar como sistema e do papel transformador que temos perante esta cratera do fosso criado pelo algoz da divisão do conhecimento.
Maria Gonçalves destaca o pensamento de Vigotsky sobre o papel do professor para com o aluno, de “somente o pensamento cientifico pode contribuir para que o aluno conheça a realidade, saindo da aparência e caminhando em direção á essência das relações sociais que produzem e são produzidas pelos próprios homens. Só dessa forma teremos a maioria dos indivíduos humanizados!!!” (2011, p.141- in: Pedagogia Histórico - Critica).

                                   Jocelin de Lima Bezerra – Celino

Professor da rede Municipal de Parnamirim/RN; escritor; diretor de formação sindical da CTB/RN e Pte. do SINTSERP